Ai ai, acampar. Sair de casa, deixar sua cama fofinha e quentinha, seu banheirinho privado e limpinho, para se enfiar numa barraca micro e tomar banho gelado num banheiro cheio de areia…. Parece uma doidera, mas é tão bom. Sair do mundinho confortável tem algumas desvantagens (no final, o camping estava lotado, então era fila pra tudo, tomar banho, escovar os dentes, fazer xixi e número 2, cozinhar o macarrão, o miojo e ferver a água do café). Mas tem mil outras vantagens…

A porta do camping.
Quando se está acampado, a gente fica mais próximo da natureza. Dentro da barraca, a gente nunca conseguia passar das 8h da manhã. Não por causa do calor, pois nós arrumamos a capa da barraca de forma que o ventinho e o frescor da madrugada entrasse refrescando tudo dentro da nossa “cápsula”! Mas sim porque o dia estava ali se apresentando… Com seus pássaros cantando sem parar, e o mar quente e mansinho esperando lá fora, quem iria ficar muito tempo dentro da cápsula?

O mais legal do camping, e sempre será assim, são as pessoas. Não os outros colegas acampantes… estes estavam organizados em panelas impenetráveis e muito mais preocupados em apertar os seus baseados. Eu digo as pessoas daquele lugar. O Seu Ivan, dono do camping, sempre gentil e calmo, providenciando ou tentando providenciar tudo o que a gente precisava no seu mercadinho. O Neca, verdadeiro homem da selva, que subia no coqueiro de manhã, e a gente acordava com os cocos caindo no meio do camping, que colhia as sementes de dendê para fabricar o delicioso azeite, que fazia fogueiras mágicas expulsando todos os mosquitos do lugar, e que deitava nas folhas de palmeiras no início da noite, camuflado, relaxando a sua baianisse, e aparecia à noite de óculos escuros. O Paulinho, com seu jeito doce e sincero, passava seus dias trabalhando no camping, e transformando a madeira em peças de arte.

Paulo talhando a imagem de peixes em um pedaço de madeira.
Tem também o Rubem, e sua filha linda, a Samana, que moram no Vale do Capão e passam as férias em Moreré, ficando por lá até a festa de Iemanjá, no dia 2 de fevereiro. Experimentei o chapati, cozido na chapa do fogão a lenha, um pão indiano preparado por Rubem em questão de meia hora, e uma delícia! Lembra o pão árabe, mas adaptado aos ingredientes disponíveis, como a farinha de milho.

Rubem prepara o chapati na cozinha do camping.
E por último, o mais querido de todos, o amável Wilian. O menino de 10 anos, meninão mesmo sem maldade, grudou em mim e repetia meu nome umas 55 vezes ao dia. Ás vezes ele me chamava: – Michelle, Michelle, Michelle!!! e eu respondia: – Saiu!!! No final, acho que o Uirá perdeu até um pouco a paciência com a grudelância… hehehe. Wilian já estava me oferecendo R$ 200,00 para ficar morando lá no camping, tadinho.

Wilian na nossa chegada.
Ele foi nosso verdadeiro anfitrião, que de anfitrião não tinha nada… EU: -Wilian, você conhece essa praia? WILIAN: – Eu não. EU: – Wilian, porque esse lugar tem esse nome?, WILIAN: – Não sei. Ahahahah… ele nos acompanhou durante toda a nossa viagem, em cada caminhada, e até em algumas enrascadas!!! (Caminhamos por cima dos corais – oi IBAMA, tudo bom? – e machucamos muito nossos pés, eu e Wilian agarrados, toda hora a gente caía, ou afundava o pé na lama/coral). Depois, tive que tirar os caquinhos de corais dos nossos pés. Já no segundo dia o menino estava preocupado com o fato de que teríamos que ir embora. Pobre Wilian, chorou um pocadinho na nossa despedida, e ficou “semi” deprimido uns três dias antes da nossa partida (“semi” porque crianças nunca ficam 100% deprimidas, não é compatível com a infância isso!).

Wilian na nossa despedida.
Também, não era pra menos! Rimos muito, brincamos muito, zoamos pra caramba, e o menino me ensinou de novo como é bom ser criança e ser boboca. No último dia, ficamos horas no mar brincando nas ondas, até as pontas dos meus dedos ficarem murchas, assim como acontece quando a gente é criança.

O caminho de corais que enfrentamos até chegar naquela ilhazinha lá do fundo da foto.
Ah! Tem também o Bermuda, filhote do Paulinho, o pequeno pelúcia mais lindo, safado e boiota de todos os tempos, que numa manhã bem cedo, com sua patinha micro e gordinha, pediu para entrar na barraca, e que quando puxei ele pra dentro, a chuva desabou bem forte. O safado dormiu no meu colo o sonho dos anjos protetores de filhotes boiotas. O Uirá não gostou muito e saiu da barraca.

Bermuda de manhãzinha.

Bermuda serelepe de tarde.