Naquela tarde, ela estava agitada, nervosa, aflita. Não conseguia acreditar no que estaria prestes a acontecer. A outra gêmea já havia saído de casa, num rompante de impulsividade. Mas essa não sairia, não teria coragem suficiente, pensava ela. Enquanto a filha fazia as malas, ela cuidava dos afazeres domésticos, mas não conseguia conter as palavras ofensivas que escapuliam da boca naquele momento de dor, revelando o temor pelo futuro da filha.
A essa altura, o seu coração enorme de mãe estava pequenininho. Logo ela, que havia abandonado tudo por aquelas duas meninas, que ficou viúva tão na flor da idade, que foi deixada de lado pelas famílias e pseudo-amigos, que perceberam o quão pesado era o fardo que ela teria que carregar. Que deixou sua própria vida de lado. Tão cedo a vida mostrou-lhe a sua face trágica, dando-lhe a sensação de que talvez tivesse sido predestinada a viver aquilo, como se Deus tivesse traçado aquele caminho por algum motivo. E ela assumiu um crompromisso: dar àquelas duas meninas a infância mais feliz e a vida mais maravilhosa que poderiam ter, mesmo sem um pai por perto. E conseguiu.
Enquanto a filha fazia as malas, em nenhum momento ela pediu para lhe dar um abraço. Em nenhum momento foi afagá-la, ou oferecer ajuda. Só conseguia sentir a mágoa apertar por dentro, a sensação de vazio e de inutulidade. Só conseguia pensar na ingratidão. Só conseguia pensar no quanto as filhas ainda eram jovens, ingênuas e imaturas para enfrentar a vida sozinhas, apesar dos quase trinta anos. Pensar como não queria que elas se machucassem, sofressem, ou se vissem na mesma situação que ela, suscetíveis a fatalidade e ao abandono que o destino poderia lhes reservar. Ali, elas estariam protegidas.
Mas a filha se foi. Carregou tudo o que possuía, deixando os armários vazios. O quarto sem os móveis. Na mesma hora, a mãe saiu para dar uma volta, pois o vazio ficaria mais vazio dentro daquele apartamento, dentro do ninho.
Dias se passaram e elas se falaram ao telefone. As palavras ofensivas deram lugar as amenidades da vida de cada uma. Com o tempo, aos poucos, voltavam também as palavras de amor. De tempos em tempos a filha visitava a mãe.
Quase um ano e meio depois, a mãe lhe conta que esteve num médico que também é espírita. No meio de uma conversa qualquer, o médico lhe pergunta se ela havia sonhado com o João Luis. Em nenhum momento ela havia comentado que o nome do pai das meninas era João Luis, achou estranho e surreal ele ter perguntado aquilo.
Ela então lhe contou um episódio. Se recordou que, após as duas filhas saírem de casa, havia sim tido um sonho que parecia muito real. Sentiu pesar sobre a cama, como se alguém tivesse deitado ao lado dela. Lembra-se que ganhou de presente uma flor, e com toda a verdade do mundo recebeu um beijo…
Para ela, agora tudo fazia sentido. Ela tinha certeza de que o pai hava feito uma visita, agradecendo-lhe por tudo que ela havia feito por aquelas meninas que não eram mais meninas, eram mulheres. E estavam prontas para a vida.

Que lindo, cunhada… Que linda família, afinal <3