Me mudei em abril pra pertinho da Rua Ortiz Monteiro, feliz da vida com a possibilidade de comprar verduras e legumes frescos na feira livre que acontece todos os sábados.
Não, a feira não acabou. O que acabou foi a xepa, aquele momento delicioso em que a feira está prestes a acabar, e você consegue negociar melhor os preços dos produtos.
Há duas semanas, eu havia acabado de chegar na feira e pedir uma água de coco. Eu gosto de acordar com calma no sábado, descer, comer o bolinho de bacalhau dos deuses (que vende na feira), e aí sim começar as compras. Nesse dia, chegou um fiscal da Secretaria Municipal de Urbanismo, e disse pro feirante: “Acabou, acabou!”. Uma pessoa que havia acabado de chegar e pedir um coco não entendeu nada.
Fui perguntar pro amigo fiscal qual o propósito daquilo. Ele me disse que alguns moradores da rua estavam reclamando que a feira acabava muito tarde. Então rebati dizendo que eles estavam acabando com a coisa mais legal da feira: a xepa, e que me apontasse moradores insatisfeitos, pois eu não conhecia nenhum. Ele se limitou a dizer que eu, apesar de nova, entendia de economia doméstica. Aham.
Com ódio no coraçãozinho, saí em disparada tentando encontrar o que havia listado, e confesso que me senti uma criminosa, comprando escondido saquinhos de batata baroa, tomate, cebola, e mamão. Isso tudo porque um feirante me informou que, caso seja pego pelos fiscais fazendo qualquer venda depois das 13h, pode ser multado e até proibido de atuar ali.
Acabei não conseguindo comprar quase nada, saindo da feira frustrada.
Pesquisando na internet, descobri que a fiscalização faz parte da Operação Choque de Ordem.
Me chateia o fato de ter que acordar mais cedo para fazer feira. Mas quanto a isso tudo bem.
Me chateia mais ainda o fato de a Prefeitura fazer da feira, que é acima de tudo uma manifestação cultural, uma atividade regrada e burocrática da cidade.
Eu quero as ruas limpas depois da feira. Eu quero um destino correto pro lixo. E não ver mais cenas como a da foto abaixo.

